sexta-feira, 14 de junho de 2019

Uma incursão no universo do microconto

Um novo passo na caminhada sobre narrativas
Após a discussão minuciosa sobre teoria do conto, personagens, narrador, enredo, tempo e espaço, estamos prontos para uma nova modalidade de narrativa breve, constituída pelo exagero da economia de palavras: o microconto. Embora todas as categorias das narrativas breves possam ser utilizadas nesse módulo, precisamos levar em consideração a especificidade desse gênero brevíssimo.

O microconto enquanto gênero literário

Também conhecido como miniconto ou nanoconto, o micro-conto é uma construção literária mínima, muitas vezes composta em apenas um período, ou até mesmo em uma linha. Porém, nessas poucas palavras, o escritor sugere um contexto básico que possa apoiar o leitor em uma interpretação. Como o input dado pelo escritor é rarefeito, o texto não conseguirá selecionar as informações que pretende passar com a mesma precisão de um texto maior – como um romance, o que torna a obra final extremamente aberta, e fazendo com que o leitor oscile entre todas as possibilidades que conseguir pensar, dentro da verossimilhança e coerência interna do texto.

Interpretando um microconto

Um microconto extremamente famoso é o do escritor guatemalteco Augusto Monterroso, que você pode ler abaixo.


Ao deparar-se com esse trecho de sete palavras e um ponto final, o leitor que deseja engajar na leitura precisa fazer algumas considerações:


  • Eu prefiro ver essa história como fantástica ou realista?
Como o texto não fornece dados o suficiente sobre isso, a decisão cabe ao leitor. Se ele optar por uma história fantástica, podemos estar falando de um dinossauro factual, com dentes afiados e escamas e um ser humano, mas também podemos estar falando do Rex, o tiranossauro da franquia Toy Story, etc. Mas, se a opção for por realismo, o dinossauro factual terá de ser inserido em seu contexto histórico se seres humanos por perto, ou ele precisará ser um fóssil ou, ainda, um brinquedo.


  • Quem é o “ele”? “Lá” é onde?

Estamos falando de um ser humano, de um animal? O lá é uma selva, uma prateleira de um quarto? Porque a informação sobre o “ele” acordar foi dada? E o que o dinossauro “ainda” estar lá é relevante?
Como são poucas as palavras, elas tornam-se extremamente valiosas dentro de uma interpretação tão aberta. A resposta a essas palavras consegue fornecer um contexto ficcional para o leitor se embasar e criar a história que mais convém ou agrada.

Perceba que, no caso dos microcontos, o leitor precisa trabalhar muito com muito pouco e, nesse aspecto, a pressuposição e a materialidade  linguística são as melhores ferramentas que existem.

A teoria do Iceberg de Hemingway


O conto, para Ernest Hemingway, é como um iceberg. Nessa metáfora, a parte que pode ser lida, ou seja, aquilo que está explícito e escrito corresponde ao topo do iceberg, que fica à vista de todos. Porém, assim como a formação de gelo, o conto tem uma parte submersa, que não é explícita nem visível. Essa parte corresponde aos não-ditos do texto, ou seja, a tudo aquilo que o leitor suspeita, adivinha, compreende dos subentendidos e das lacunas deixadas propositalmente – ou não – pelo escritor. 
Adaptando ao mundo dos microcontos, a ponta do iceberg aqui é mínima, quase imperceptível, enquanto a parte submersa é gigantesca. Nesse caso, é quase como se no sistema literário, nesse caso, se desiquilibrasse, fazendo o leitor trabalhar muito mais para preencher lacunas, porque o que o autor fornece é muito pouco. 


Características do microconto

Sendo um gênero aberto e muito contemporâneo, não existem regras de criação. Todavia, algumas características podem ser observadas em bons microcontos:
  • Concisão: discurso resumido, sintético, preciso. Um microconto não esbanja palavras, ele vai direto ao ponto.
  • Narratividade: contos precisam contar histórias e essa característica é chamada de narratividade. Microcontos podem não contar uma história completa, mas devem sugerir a existência de uma. 
  • Totalidade: o microconto não pode depender de continuação ou explicações para funcionar.
  • Foco na ação: o microconto organiza-se em torno de uma ação e evita descrições de espaços, pessoas, situações. 
  • Universalidade de temas: para que o máximo de leitores possa relacionar-se e engajar-se com o microconto, é necessário que o tema evocado faça sentido em sua própria vida. Temas comuns na humanidade são capazes de envolver qualquer pessoa, em qualquer lugar do tempo e do espaço.

Reunião de textos do livro “Os cem menores contos brasileiros do século XX”, na página do Yotube O CANAL DO LIVRO.


Projeto Dois Palitos, de Samir Mesquita 

(clique para acessar)


“Obra inusitada, Dois palitos, de Samir Mesquita, publicada em uma caixinha de fósforos, configura em peculiar exemplo de o quão vivemos uma efervescência de mudanças quanto às formas literárias e quanto à maneira de apresentá-las ao público. Os livros hoje também são resultado de experimentações de formatos, estilos de letras, feitios gráficos, progressos técnicos, de ilustrações inovadoras e da liberdade dos seus autores para escolher como, onde e quando publicar seus escritos.” Luciene Lemos de Campos, no artigo “entre frinchas, a poética do microconto brasileiro” (2011).

Atividades:

  1. Assista ao vídeo “Miniconto: o máximo do mínimo”, com a participação dos escritores Andrea del Fuego e Marcelino Freire, do Governo do Estado de São Paulo. Nesse vídeo, os autores comentam o gênero microconto, chamando a atenção para a imediatez, concisão e o encaixe com as novas formas de se comunicar. Identifique a opinião dos dois autores sobre esses três aspectos do gênero textual.


2. Acesse o roteiro de leitura e análise de textos literários (clique para acessar) e responda, no caderno, aos questionamentos apresentados nele. 


3. Desafio de escrita autoral:
Chegou sua vez de experimentar a escrita autoral com o gênero. Seu microconto deve ter as características básicas do gênero e, portanto, sugerir ao leitor uma narrativa, mesmo que lacunar. Para sua construção, opte por um dos desafios de comunicação abaixo:
  • Desafio do Marcelino Freire na oficina: construa um microconto com 6 palavras;
  • Desafio do Marcelino Freire no livro “os cem menores contos brasileiros do século XX”: componha seu microconto com um apenas 50 palavras e um título;
  • Desafio do Twitter: seu microconto deve ter até 140 caracteres (letras, pontuação e espaços são caracteres).


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