O Girls 4 tech surgiu em 2018, com a empresa de pagamentos online EBANX e a Junior Achievement, ONG de protagonismo juvenil, e é voltado especialmente para o público feminino jovem e leigo em linguagem computacional, com objetivo de introduzir noções básicas de HTML e CSS – tags ou marcadores e não linguagem de programação – para gerar interesse pela área de programação. O programa funciona nos moldes de MOOC, sendo EAD, gratuito e certificado, com programa de vídeos instrucionais breves, leituras complementares, e avaliações.
O diferencial é o empoderamento feminino: além do módulo sobre programadoras destaques na tecnologia informacional, as videoaulas são ministradas pelas programadoras do EBANX. Junto ao acesso, gratuidade e função introdutória, também há o cuidado em abordar a inequidade de gênero nesse segmento que, embora expanda suas vagas (Segundo o Code.org, até 2020, haverá 1,4 milhão de vagas e apenas 400 mil serão preenchidas), enfrenta preconceito de gênero desde a universidade (15% das vagas são ocupadas por mulheres, segundo o INEP), até o mercado de trabalho. Dessa forma, a Girls 4 tech, ao oferecer uma forma de educação aberta e empoderadora presta um serviço essencial a uma comunidade vulnerabilizada, porém cheia de potencial.
Após a discussão minuciosa sobre
teoria do conto, personagens, narrador, enredo, tempo e espaço, estamos prontos
para uma nova modalidade de narrativa breve, constituída pelo exagero da
economia de palavras: o microconto. Embora todas as categorias das narrativas
breves possam ser utilizadas nesse módulo, precisamos levar em consideração a
especificidade desse gênero brevíssimo.
O microconto enquanto gênero literário
Também conhecido como miniconto
ou nanoconto, o micro-conto é uma construção literária mínima, muitas vezes
composta em apenas um período, ou até mesmo em uma linha. Porém, nessas poucas
palavras, o escritor sugere um contexto básico que possa apoiar o leitor em uma
interpretação. Como o input dado pelo
escritor é rarefeito, o texto não conseguirá selecionar as informações que
pretende passar com a mesma precisão de um texto maior – como um romance, o que
torna a obra final extremamente aberta, e fazendo com que o leitor oscile entre
todas as possibilidades que conseguir pensar, dentro da verossimilhança e
coerência interna do texto.
Interpretando um microconto
Um microconto extremamente famoso
é o do escritor guatemalteco Augusto Monterroso, que você pode ler abaixo.
Ao deparar-se com esse trecho de
sete palavras e um ponto final, o leitor que deseja engajar na leitura precisa
fazer algumas considerações:
Eu prefiro ver essa história como fantástica ou realista?
Como o texto não fornece dados o
suficiente sobre isso, a decisão cabe ao leitor. Se ele optar por uma história
fantástica, podemos estar falando de um dinossauro factual, com dentes afiados
e escamas e um ser humano, mas também podemos estar falando do Rex, o
tiranossauro da franquia Toy Story, etc. Mas, se a opção for por realismo, o
dinossauro factual terá de ser inserido em seu contexto histórico se seres
humanos por perto, ou ele precisará ser um fóssil ou, ainda, um brinquedo.
Quem é o “ele”? “Lá” é onde?
Estamos falando de um ser humano,
de um animal? O lá é uma selva, uma prateleira de um quarto? Porque a informação sobre o “ele”
acordar foi dada? E o que o dinossauro “ainda” estar lá é relevante?
Como são poucas as palavras, elas
tornam-se extremamente valiosas dentro de uma interpretação tão aberta. A
resposta a essas palavras consegue fornecer um contexto ficcional para o leitor
se embasar e criar a história que mais convém ou agrada.
Perceba que, no caso dos
microcontos, o leitor precisa trabalhar muito com muito pouco e, nesse aspecto,
a pressuposição e a materialidade
linguística são as melhores ferramentas que existem.
A teoria do Iceberg de Hemingway
O conto, para Ernest Hemingway, é como um iceberg. Nessa metáfora, a parte que pode ser lida, ou seja, aquilo que está explícito e escrito corresponde ao topo do iceberg, que fica à vista de todos. Porém, assim como a formação de gelo, o conto tem uma parte submersa, que não é explícita nem visível. Essa parte corresponde aos não-ditos do texto, ou seja, a tudo aquilo que o leitor suspeita, adivinha, compreende dos subentendidos e das lacunas deixadas propositalmente – ou não – pelo escritor.
Adaptando ao mundo dos microcontos, a ponta do iceberg aqui é mínima, quase imperceptível, enquanto a parte submersa é gigantesca. Nesse caso, é quase como se no sistema literário, nesse caso, se desiquilibrasse, fazendo o leitor trabalhar muito mais para preencher lacunas, porque o que o autor fornece é muito pouco.
Características do microconto
Sendo um gênero aberto e muito contemporâneo, não existem regras de criação. Todavia, algumas características podem ser observadas em bons microcontos:
Concisão: discurso resumido, sintético, preciso. Um microconto não esbanja palavras, ele vai direto ao ponto.
Narratividade: contos precisam contar histórias e essa característica é chamada de narratividade. Microcontos podem não contar uma história completa, mas devem sugerir a existência de uma.
Totalidade: o microconto não pode depender de continuação ou explicações para funcionar.
Foco na ação: o microconto organiza-se em torno de uma ação e evita descrições de espaços, pessoas, situações.
Universalidade de temas: para que o máximo de leitores possa relacionar-se e engajar-se com o microconto, é necessário que o tema evocado faça sentido em sua própria vida. Temas comuns na humanidade são capazes de envolver qualquer pessoa, em qualquer lugar do tempo e do espaço.
Reunião de textos do livro “Os
cem menores contos brasileiros do século XX”, na página do Yotube O CANAL DO LIVRO.
“Obra
inusitada, Dois palitos, de Samir Mesquita, publicada em uma caixinha de
fósforos, configura em peculiar exemplo de o quão vivemos uma efervescência de
mudanças quanto às formas literárias e quanto à maneira de apresentá-las ao
público. Os livros hoje também são resultado de experimentações de formatos,
estilos de letras, feitios gráficos, progressos técnicos, de ilustrações
inovadoras e da liberdade dos seus autores para escolher como, onde e quando
publicar seus escritos.” Luciene Lemos de Campos, no artigo “entre frinchas, a
poética do microconto brasileiro” (2011).
Atividades:
Assista ao vídeo “Miniconto: o
máximo do mínimo”, com a participação dos escritores Andrea del Fuego e
Marcelino Freire, do Governo do Estado de São Paulo. Nesse vídeo, os autores
comentam o gênero microconto, chamando a atenção para a imediatez, concisão e o
encaixe com as novas formas de se comunicar. Identifique a opinião dos dois autores
sobre esses três aspectos do gênero textual.
Chegou sua vez
de experimentar a escrita autoral com o gênero. Seu microconto deve ter as
características básicas do gênero e, portanto, sugerir ao leitor uma narrativa,
mesmo que lacunar. Para sua construção, opte por um dos desafios de comunicação
abaixo:
Desafio do
Marcelino Freire na oficina: construa um microconto com 6 palavras;
Desafio do
Marcelino Freire no livro “os cem menores contos brasileiros do século XX”:
componha seu microconto com um apenas 50 palavras e um título;
Desafio do
Twitter: seu microconto deve ter até 140 caracteres (letras, pontuação e
espaços são caracteres).